Tempero da Vida

Viagens
Rosane Vidinhas
22 de abril de 2017

Uma viagem no tempo com a culinária do sul de Minas Gerais. Parte I

ROTEIRO LENHA NO FOGÃO NO SUL DE MINAS

CULINÁRIA sul de Minas Gerais

Imagina você lendo um livro… seja uma história infantil, um romance…seja qual for, tudo toma cores na sua imaginação…e os personagens? Ah! Esses você gostaria de conhecer de perto, saber a cor de seus olhos, cabelos, seu sorriso, se tem aquele jeito mesmo que te contam…

Nessa Semana Santa de 2017, foi o que aconteceu…participei de um projeto cujo roteiro de viagem se baseia no livro LENHA NO FOGÃO de Juliana Venturelli. O livro está sendo editado pela Editora Roça Nova com lançamento previsto ainda para este ano.

E embarquei nas histórias de vida das cozinheiras do sul de Minas Gerais…

Juliana Lucinda Venturelli, é mineira e vive no Rio de Janeiro desde 2006. Porém, como ela mesma diz: ”- eu saí de Minas, mas Minas não saiu de mim…”

Estudou Gastronomia na Universidade Estácio de Sá / Alain Ducase Formation (2012). É Mestre em Memória Social pela UNIRIO (2016). Pesquisa em várias áreas como Antropologia e Sociologia da Alimentação.

Apesar de conhecer bons restaurantes na cidade maravilhosa, suas raízes a levam a lutar para que a memória da comida mineira de raiz, não se apague. Afinal, nasceu e foi criada no meio de toda essa gente que valoriza o tacho de cobre para fazer um bom doce em calda, um café coado em saco de pano, uma prosa à mesa degustando biscoitinhos, pães caseiros e manteiga de verdade…

E é assim, que grupos são formados, para que de perto tenham a oportunidade de conviver frente a frente com esses personagens citados em seu LIVRO: LENHA NO FOGÃO.

É viver como num “conto de fadas nas cozinhas de Minas” ao vivo e a cores. Saímos do Rio, ficamos hospedados em São Lourenço. A partir daí nos dirigimos a outras cidadezinhas do sul de Minas Gerais. Enfrentamos estradas, muito chão de barro para chegar em destinos como Maria da Fé, Cruzília, Serranos, lugares nunca pensados a princípio em serem visitados.

Aí começa a história… quando batemos palmas na porta de uma casa e ecoamos o nome da dona, que nos recebe com  sorriso e pronta a nos contar seus segredos culinários. Quando os cachorros latem e são presos no quintal. Visita em casa de gente assim, simples assim, é coisa séria! Tem que ter cadeira para todo mundo, um quitute bem preparado, prosa e muita emoção num bom bate papo. É a luz cabreira do sol que vem por trás da cortina e aquece aquela conversa.

LEIA TAMBÉM: A culinária do sul de Minas-Parte II

E tem alguém muito especial que nos acompanhou nesse roteiro, é D. Consuelo Lucinda, mãe da Juliana, essa sabe de tudo…até porque viveu toda sua infância em Serranos, e para estudar precisou ir para cidades vizinhas. Tem muita coisa boa pra contar…

Viaje por aqui e fique com água na boca!

1 – MARIA DA FÉ

Bem no centro da Serra da Mantiqueira, com 15 mil habitantes aproximadamente, Maria da Fé localiza-se a 467 Km de Belo Horizonte. É considerada a cidade mais fria de Minas, tendo os termômetros já registrado – 6°.

O município já foi o maior plantador de batatas do Estado. Agora, seu grande atrativo, são as OLIVEIRAS, cujas azeitonas transformam o local no primeiro polo de produção de AZEITE do país.

Até no centro da cidade de Maria da Fé, existem carreiras de oliveiras. Na praça principal, encontram-se aproximadamente seis variedades das 80 que existem. Uma dessas oliveiras, já é da espécie Maria da Fé.

A EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Governo de Minas)cuida da olivicultura em Minas Gerais. Há mais de 30 anos pesquisa a cultura da oliveira na Serra da Mantiqueira.

Em 2008 a EPAMIG ( http://www.epamig.br ) realizou a primeira extração de azeite de oliva em Maria da Fé. Azeite classificado como extra virgem semelhante aos melhores azeites do mundo.

– PRIMEIRA PARADA:

FAZENDA MARIA DA FÉ

Mirta Bonifácio, é argentina, e proprietária da Fazenda. Recebe todos os visitantes com um bom papo sobre o AZEITE BRASILEIRO, produzido ali naquelas terras.

Explica que quanto mais novo o azeite maior quantidade de polifenóis (substâncias químicas com ação antioxidante, que protegem o organismo de doenças causadas por estresse, poluição, etc. os polifenóis evitam o câncer e problemas cardíacos).

O azeite é envasado numa quantidade com perspectiva de vendas, para ser entregue fresco ao consumidor.

É considerado EXTRA-VIRGEM, um azeite de qualidade por ser da primeira extração e a frio, por possuir três características: ser frutado, ter amargor e picância e precisa ter de 0,2 a 0,7 de acidez.

A espécie mais utilizada é a Arbequina que apresenta um paladar mais doce e suave.

Conhecemos os viveiros onde se faz um trabalho de maturação, raminhos de árvores selecionadas quando atinge um determinado tamanho, são transportadas para o cultivo.

Também oliveiras adultas passam por um tratamento de suas raízes, são plantadas em vasos e vendidas como ornamentação.

Com criação de vacas, o leite é tirado na própria fazenda, onde então fabricam o doce de leite e o queijo curado.

Quando as pessoas chegavam para visitar a Fazenda procuravam algo para comer, assim Mirta criou o restaurante.

Salada fresca da horta.

Salada de grão de bico com bacalhau regada ao azeite brasileiro.

Peixe ao molho tártaro, arroz e batatas assadas.

 

– SEGUNDA PARADA:

GENTE DE FIBRA – Cooperativa Mariense de Artesanato (www.gentedefibra.com.br )

Um lindo trabalho artesanal feito a partir de FOLHAS DE BANANEIRAS (matéria prima descartada da colheita da banana), papel Kraft reciclado e pigmentos naturais extraídos da terra.

 

– Terceira parada:

DOCE DE LARANJA feito em tacho de cobre na casa da D. Estela

Maria Estela Carneiro Cardoso, está com 89 anos, nos recebeu com muito carinho contando suas histórias. Seu filho Eugênio retratado com ela no livro, não pode estar presente.

Cenário de uma sala como a da casa da D. Estela, por exemplo, dá sinais de vida que foi vivida. Seus bordados viraram quadros e também nas paredes, as fotos da família. Tudo ali sem nenhuma obrigação de modismos ou tendências. D. Estela, quando fui me despedir, disse: – “Filha, desculpa se não pude hospedar todos vocês! ” (éramos quinze), não me esquecerei jamais que ainda existem gestos assim.

Dona Estela viveu na roça, época que cozinha era lugar de mulher (fala de sua mãe e avó cozinhando), cuidou dos irmãos e da casa, e sempre se viu às voltas fazendo doces em tachos de cobre.

Fomos conhecer seu DOCE DE LARANJA. O segredo do doce é deixar a casca da laranja de molho durante 4 dias, trocando a água de tempos em tempos para tirar o amargor: -“ Você raspa a laranja todinha, tira o miolo, fica só a casca mesmo e deixa de molho”.

Depois leva para o tacho de cobre com açúcar e espera apurar (pegar consistência).

O tacho de cobre deixa o doce com a cor da fruta, em panela de alumínio o doce escurece. Diz D. Estela.

Uma cozinha tão cuidada, com dois fogões: a gás e o de lenha que está ali delineando uma época…

E quando você prova do doce, duvido consiga explicar o que sente…pura magia…

Biscoitinhos de sequilho.

Quarta parada:

Ateliê do artista plástico Domingos Tótora.

Reconhecido internacionalmente. Domingos participou da criação do Gente de Fibra citado acima. Lá o trabalho é feito com folha de bananeira, aqui utiliza como base caixas de papelão.

Um trabalho de sustentabilidade.

Veja mais: www.domingostotora.com.br

2- SÃO LOURENÇO

São Lourenço, faz parte do Circuito das Águas de Minas Gerais. É a mais conhecida estância hidromineral do Brasil. Segundo o IBGE, a população em 2016, era de 45.128 habitantes. Cidade turística, com vários atrativos, quem vai a São Lourenço, com certeza quer voltar.

O controle do Parque das Águas está sendo feita pela Nestlé Waters. Entenda mais em:

https://www.nestle.com.br/portalnestle/parquedasaguas/parque.html

 

Quinta parada:

BISTRÔ SOPA DE PEDRINHAS

Sopa de Pedrinhas(https://www.facebook.com/sopadepedrinhas)é um restaurante localizado bem no centro da cidade de São Lourenço, pertinho da Igreja Matriz.

Quem comanda o espaço é Cecília Marvulli, italiana, mora em São Lourenço desde 2013. É terapeuta holística e boa cozinheira.

A proposta de sua comida é que realmente sensibilize as pessoas. O cardápio é elaborado por ela mesma e com todo cuidado: nada de agrotóxicos, transgênicos, basicamente vegetariano e respeita a safra, utilizando os alimentos que estão em sua melhor época. Como ela anuncia: – alimentação ética.

Sopa de Pedrinhas é um espaço que respira detalhes de amor e carinho por toda parte. Nas paredes existem mensagens, bilhetes escritos à mão, imagens que remetem à natureza…

Comida com alma. Fiquei encantada.

O perfume da comida que vem da cozinha aberta, o prato trazido à mesa pela própria Cecília. Algo que não estamos acostumados em outros restaurantes.

É como você chegasse à casa de uma amiga e ela resolvesse preparar algo para você. Uma boa conversa vai rechear o momento de espera.

O cardápio é construído com frequência dependendo também da inspiração de Cecília.

 

 

Tapioca de ovo caipira, ora pro nobis, tomate e queijo.

Creme de palmito fresco e alho poró, grãos e regado ao azeite.

Panna cotta de baunilha com calda de amora e hibisco.

Suco de limão, capim santo, hortelã, gengibre e mel(antigripal).

Culinária do sul de Minas

Um projeto, um grupo, novos sabores.

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