Tempero da Vida

Memórias e Sensações
Rosane Vidinhas
27 de dezembro de 2018

Na padaria dos anos 60

Rio, 27 de dezembro de 2018

Por Rosane Vidinhas

A padaria dos anos 60…


Hoje fui ao Lins de Vasconcelos, pertinho do Méier, no apartamento que pertenceu aos meus pais por mais de 30 anos. Passando pela rua Maranhão, onde vivi toda minha infância, estava sempre na cada de meus avós, observei portas de lojas cerradas. Ali, nos anos 60, eu menina, ia a padaria comprar bisnaga, não tinha pão francês, brigite, pão de forma ensacado de marcas famosas. No máximo, sonhos, sonhos de padaria.

Sozinha pela rua, “empoderada”, perto dos meus 6 ou 7 anos, mal nenhum, sem essas neuroses atuais, comprar pão na padaria, que ficava bem na esquina. Minha mãe só mandava eu ficar atenta ao “homem do saco” (era a forma de dizer: -presta atenção filha!), e nunca soube por onde ele realmente andava.

Lembro de que não alcançava o balcão. O padeiro do outro lado, me servia com o gesto de sempre: envolvia a bisnaga num papel cinza e com toda a prática enrolava as beiradinhas das pontas do papel para o embrulho não se desmanchar. Quando eram duas bisnagas, enrolava no mesmo papel cinza e amarrava com barbante, que saía de um grande rolo, e com as próprias mãos cortava o fio. Estou sentindo como naquele momento, em que tudo era tão curioso, e nunca imaginaria algo diferente. Achava que aquela sequencia se daria ao longo de toda minha vida. O que vivemos no momento, é a única verdade.

Um outro senhor recebia pela compra (não lembro de mulheres trabalhando na padaria), rodava a manivela da caixa para abrir a bandeja, e eu ouvia o tilintar das moedas para o meu troco.

Eu pagava com Cruzeiro (sim já tivemos Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo…desse dinheiro alguém lembra?)


E lá ia eu de volta para casa, feliz, eu não andava, saltitava.

A mesa para o café da tarde ficava bem no centro da cozinha da casa da minha avó. Sentava junto as minhas primas, um verdadeiro ritual. Minha tia não gostava que bagunçasse a manteigueira, manteiga sim, não tinha margarina.
O leite era coado, se separava a nata, uma verdadeira caneca de café com leite. Cinco vira-latas em média nos cercavam, não brinquei na infância com cachorro de raça.
Padaria e ainda: quitanda, aviário (que vou contar nas próximas) na mesma rua, pertinho de casa. Não existiam supermercados, não existiam celulares que hoje tudo pode fotografar.

Cenas tão verdadeiras na minha memória, e um passado vivo que tanto pesquisei fotos na internet e pouco achei. Essas fotos aqui, só me trazem leve ideia, nem o corte da bisnaga era assim.

O que existe de rico em você pode derrubar um Google.

 

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